domingo, 20 de fevereiro de 2011

Pés no chão

Reprodução: Mônica Bergamo, Folha.com

Jogando aos 38, Rivaldo quase parou em 2004 e virou evangélico após pressentir que morreria num acidente

Imagem: Eduardo Knapp/Folhapress

Na semana em que Ronaldo se retirou dos gramados, o homem que participou de 7 dos 15 gols do Fenômeno em Copas do Mundo recebeu a coluna no centro de treinamento do São Paulo, na Barra Funda. "Sete? Pior que nem lembro. Foram sete mesmo? Não fiz essa conta. Isso é bom, né? Quando passar os gols do Ronaldo, vai passar um pouquinho da minha imagem também." Aos 38 anos, Rivaldo Vitor Borba Ferreira continua em atividade, vestindo a camisa 10 da equipe tricolor, com a qual assinou no final de janeiro e onde estreou marcando um gol, no último dia 3.
De bermuda e camiseta após o treino da manhã, carregando dois celulares e uma bolsa masculina Louis Vuitton, ele está de volta ao Brasil depois de ter jogado na Espanha -pelo Barcelona, foi melhor do mundo em 1999-, na Grécia e no Uzbequistão, e de liderar a seleção para o penta, em 2002. Espalha o corpo de 1,86m em uma poltrona e tira os pés para fora das sandálias pretas, da grife D&G.
Antes do treino da tarde, ele precisa levar o carro, um BMW ano 2003, para a revisão na concessionária. "Se eu chegar lá, os caras vão botar defeito e falar: "Entra aqui, Rivaldo, vem conhecer o modelo novo". É tudo "migué". Já caí muito nessa", conta ele, que tinha uma Ferrari na Europa. "Vendi. É tudo ilusão, jogar dinheiro fora. Gosto de carro, mas não sou mais aquele empolgado", conta ao repórter Diógenes Campanha. Tem outro BMW, "já antigo", e uma picape Dodge Ram, que só usa em Mogi Mirim (151 km de SP), onde é dono do clube homônimo, no qual despontou no futebol. Licenciou-se da presidência para defender o SPFC, mas voltará à cadeira quando parar de jogar.
Voz baixa e sotaque pernambucano, Rivaldo às vezes desvia o olhar para a janela que dá para o jardim. A timidez e a falta de marketing pessoal já renderam críticas. Mesmo assim, o clube conta com ele para alavancar patrocínios, como Ronaldo fez no Corinthians e Ronaldinho deve fazer no Flamengo. Uma operadora de cartões de crédito anunciou no uniforme em sua estreia. Rivaldo comemorou seu gol levantando a camisa e cobrindo a cabeça, sua marca registrada. Quatro dias depois, um jornal que cobre o mercado publicitário escreveu que "a estratégia derrapou no momento em que o craque cobriu o patrocinador".
"Joguei 90 minutos e as pessoas vão pegar um segundo", reclama o meia, lembrando que Ronaldo, na coletiva em que anunciou a aposentadoria, tampava sem querer o logo da Nike quando colocava a mão perto do peito. "E ninguém falou nada. Comigo vão falar da comemoração de um gol? Tão de sacanagem! Se pedissem, eu colocava Visa ao contrário, para quando levantasse a camisa. Pela maneira que eu sou, buscam coisinhas para falar que eu não sei fazer."
Evangélico, Rivaldo exibe no braço direito uma tatuagem com os nomes dos filhos Rivaldo Jr., Thamirys (nascida na Espanha), Rebeca, João Vitor e Isaque. Teve os dois primeiros com Rose, com quem foi casado de 1994 a 2003. Os outros três, nascidos na Grécia, com a atual mulher, Eliza, tatuada no dedo e gravada em um anel na mão esquerda. "Meu filho mais velho tem 16 anos e está na empolgação de me ver. Ele tinha um ano quando eu fui para o La Coruña. Acompanhou meu auge no Barcelona, mas estava em outro país, outra língua. Agora é diferente, ele ouve falar do pai. Muitos terminam a carreira quando o menino está começando a entender." A seguir, um resumo da conversa:

Folha - Você pediu para não fazer propaganda de bebida nem de cigarro. O que acha de Ronaldo e o técnico da seleção, Mano Menezes, anunciarem cerveja?
Rivaldo - Não sou contra. Cada um vai do seu perfil, da sua vontade, do que se paga, entendeu? Podem me pagar uma fortuna que eu não faço, mas cada um é cada um. Nunca vou criticar o Ronaldo, o treinador, o Cafu, esses que estão fazendo. Procuro ver o meu lado e eles procuram ver o deles.
Já ofereceram uma fortuna?
Olha, vou te falar que, quando eu estava começando, eu até fiz [propaganda]. Da Brahma, se não me engano, pra Copa do Mundo de 94. Ganhei uma grana. Eu era novo, caí naquela, mas depois que eu fui me tocando. Hoje eu vejo como um erro, mas estava com 20, 21 anos. Graças a Deus, eu superei isso, porque nunca bebi, nunca fumei. Sou um atleta e quero ser um exemplo, principalmente para as crianças que gostam de esporte. Tenho meus 38 anos e estou jogando futebol, e isso pode servir de exemplo.
Você é considerado avesso ao marketing, enquanto outros jogadores lucram com a imagem, mesmo depois de aposentados. Tem medo de ser esquecido quando parar?
Não, porque o que eu fiz já é história. Quem me conhece, meus amigos, minha família, não vão esquecer. Um dia, não vai terminar a carreira, vai terminar a vida, e a fama, o dinheiro, tudo vai ficar. Sou muito tranquilo, e espero que essa tranquilidade siga quando eu me aposentar. Já teve momentos em que eu pensei em parar.
Quando?
Em 2004. Estava no Cruzeiro, cansado de viagem de um lado pro outro, treinamento. Não parei porque o [técnico Vanderlei] Luxemburgo disse: "Você tá louco, Paraíba? Ainda é novo pro futebol." E como eu separei e casei novamente, a minha esposa fica me empolgando pra jogar. Cada ano que falo "vou parar", ela fala: "Não, vai jogar mais dois anos". Claro, não é ela que joga, né? Fica em casa enquanto eu corro nos treinamentos. Brinco que ela está me sugando.
Na época da separação, você estava no Milan e chegou a ser eleito o pior jogador da Itália. O divórcio atrapalhou?
Uma separação sempre é difícil, especialmente por causa das crianças, que voltaram pro Brasil. Você está bem para jogar, mas não tem cabeça, porque chega em casa e não tem aquela alegria dos teus dois filhos. Não gosto de dar como desculpa, mas se perguntar a especialistas nesse lugar [aponta a cabeça], elas dirão que afeta um pouco. Tive muitos jogos bons como titular, mas teve dois, três em que fiquei fora até dos 18 [nem no banco de reservas]. Já me senti um pouco humilhado. O ponto final foi uma partida contra o Ajax, lá na Holanda. Ali eu me arrebentei. O ônibus levou a gente até o campo. Faltava uma hora e meia pra começar o jogo. Fiquei essa hora e mais duas no ônibus fechado, assistindo um filme no DVDzinho. No hotel, fui falar com o Leonardo, que já era supervisor lá, e disse: "Pra mim, deu".
E como conheceu a Eliza?
Foi em Curitiba, em 2004. A família dela é evangélica, e hoje eu sou convertido também, por intermédio dela. Ontem estava contando pros jogadores a minha conversão. Foi em 19 de abril de 2004, dia do meu aniversário. Fazia 20 dias que uma coisa me falava que eu ia morrer de acidente de carro. E isso me levava a dirigir, mesmo sem motivo. Tava voltando de Mogi Mirim e ouvi: "É hoje, é hoje que você vai morrer". Eu vinha na [rodovia dos] Bandeirantes, sempre na última pista, para ficar bem longe de caminhão. Mas também ouvia: "Se você me aceitar, não morre". Cheguei no apartamento e disse pra minha esposa: "Hoje eu quero aceitar Jesus". Ela pegou a Bíblia, orou comigo e aí nunca mais escutei aquilo. Se eu já conhecesse Jesus, jamais teria me separado, porque Deus é contra o divórcio.

3 comentários:

Régis/SP disse...

Guedex, só uma pequena correção: Monica Bergamo é Folha de SP.
Um abraço

Régis/SP disse...

A fofoqueira do Estadão é a Sonia Racy...rs

Guedex disse...

Putz! Ato falho (pra não dizer vacilo)
Valeu

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