domingo, 13 de março de 2011

Imbroglio


Assim mesmo, sem acento, bem italiano. Se você preferir, que seja “Imbróglio”, então, com acento e bem brasileiro. O sentido é o mesmo, assim como a palavra, com a qual cresci soando nos ouvidos, falada por avós, pais, tios e tias: bagunça, confusão, desordem, complicação.
Assim se pode definir a atual situação envolvendo as negociações para os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro a partir de 2012. E digo a partir, e não para o triênio 2012/2014, dado o imbróglio geral.
Amigos me perguntam na rua, na livraria, pelo telefone, por e-mail, assim como leitores, como está a situação e o que vai acontecer. E minha resposta hoje, como há vários dias, é a mesma:
Sei lá.
Por sinal, vou socorrer-me usando as palavras do presidente do São Paulo, Juvenal Juvêncio, a respeito disso tudo que está aí, citadas em matéria do portal GloboEsporte:
“Ainda há muitas incertezas, muitas interrogações (a respeito da licitação e da disposição de alguns clubes em negociar diretamente com emissoras). Tem muitos problemas jurídicos. Vamos aguardar a posição dos clubes”.

A confusão está montada com a participação de duas dezenas de clubes de futebol, uma entidade que os reúne ou reunia ou reúne em parte, pelo menos três, mas possível ou provavelmente 5 redes de televisão de sinal aberto, a presença não declarada da confederação responsável pelo futebol no Brasil e, por último, mas não menos importante, a presença intrusa de um órgão do Estado. Bom, isso é o que me lembro, mas não ficarei surpreso se tiver deixado entidades outras de fora.
O dia de ontem amanheceu com grande expectativa. Na véspera, na tarde da quinta-feira, conversando com pessoa da assessoria do Clube dos 13, perguntei a respeito e nada ouvi de conclusivo. Já meio escolado nesses processos, perguntei se envelopes já haviam sido entregues, usando o plural propositalmente, e a resposta foi positiva, igualmente no plural. Não acreditei e preferi não comentar o assunto. Na verdade, nada havia e na abertura da reunião apenas a Rede TV cumpriu sua parte e entregou um envelope com uma proposta. Segundo seu diretor presente no evento de abertura, se houvesse alguma outra concorrente ele entregaria outro envelope, com proposta de valor superior – segundo o Juca Kfouri postou em seu blog.

Record refuga
Uma vez mais a Rede Record agitou, agitou e na hora agá refugou. Já tinha feito o mesmo em 2008, na licitação para o triênio 2009/2011, quando, à última hora anunciou que não participaria da licitação por não concordar com a clausula de preferência da Rede Globo. Ora, a cláusula lá estava há muitos anos e é prática corriqueira em contratos comerciais e só existe quando atende aos interesses das duas partes envolvidas. Se houvesse, de fato, a disposição de disputar os direitos do futebol, o certo teria sido apresentar a proposta, que já na época era comentada como sendo de “1 bilhão”, e deixar que a concorrente se complicasse para empatar e levar, se fosse o caso.
Agora, novamente a mesma coisa: depois de muita agitação, o refugo em cima da hora, para consternação, e isso eu lamentei profundamente, do presidente do Clube dos 13, Fabio Koff. Foi uma postura de absoluta deselegância e mau gosto. Sim, eu ainda acredito que um mínimo de elegância e bom gosto é necessário nas relações humanas. Dessa vez, a desculpa é que a licitação tinha “cartas marcadas”.  Ora, pílulas, de novo a mesma coisa! Algum presidente de clube, conhecendo a “fortaleza moral” de que são constituídos, resistiria a uma proposta da ordem de 700 milhões ou mesmo 800 milhões de reais por temporada, como foi aventado?
Então, uma vez mais, presenciamos um blefe.

Rede TV vence
A proposta da Rede TV é surpreendente, ao menos para mim. Realmente, não esperava por ela e achava a disputa limitada às duas maiores redes, hoje.
A oferta de 516 milhões de reais por temporada, com antecipação de 20% do total do contrato – 309,6 milhões – é altamente tentadora e torna possível que o total do pacote licitado atinja a cifra fabulosa de 1 bilhão de reais por temporada.
Todavia, ainda há muito a ser discutido e explicado. A vencedora da licitação tem, a partir de ontem, 30 dias para a apresentação de garantias bancárias para todo o pacote e, segundo matéria da Folha de S.Paulo de hoje, a rede precisa, ainda, reunir os patrocínios necessários para honrar o compromisso. Segundo Juca Kfouri, que vem divulgando algumas informações sobre o processo em seu blog e em sua coluna na Folha, o Bradesco e uma empresa multinacional estariam por trás da proposta apresentada. Como podemos perceber, contradições e incertezas é o que menos falta, pelo contrário.
Um problema grave para o caso de confirmação da vitória da Rede TV é o fato dela ter  menor cobertura entre as grandes redes de televisão. Enquanto Globo e Record cobrem todo o território nacional, com mais de 100 afiliadas cada, a Rede TV tem apenas 40 emissoras em sua programação, deixando parte do país fora de seu alcance. Esse fato por si só complica ainda mais a questão comercial, não só diretamente, pela dificuldade em poder cobrar preços que viabilizem a proposta, como também indiretamente, pois os clubes e seus patrocinadores teriam menos exposição e perdas em suas receitas paralelas, fortemente dependentes da exposição na televisão – fator de primordial importância que sempre pesou a favor da Globo e não foi devidamente equacionado pela direção do Clube dos 13, na minha opinião, como já expus anteriormente.

Negociações paralelas
Globo e Record conversam com os clubes, individualmente.
Certo?
Errado?
Não vem ao caso, cada uma está defendendo seu negócio e puxando a brasa para a sua sardinha.
A defesa dos interesses do futebol não é tarefa de uma emissora de televisão ou de um portal de internet ou de um salvador da pátria, qualquer que seja.
É tarefa dos clubes, que estão longe de fazê-la.
É tarefa que só conseguirá ser levada a cabo com união e identidade de propósitos. Nesse sentido, a ação de Andrés Sanches e outros presidentes, inclusive Patrícia Amorim, foi um tiro nos próprios pés. Conseguiram destruir, praticamente, o pouco que havia de união e identidade de propósitos. Fizeram o jogo político de quem tem tudo a ganhar com a desunião dos clubes, que é, justamente, o presidente da confederação.
Rede Globo? Ora, ela é uma organização comercial e é forte. Disse-me Marcelo Portugal Gouvêa, ex-presidente do São Paulo e infelizmente falecido, que detestava negociar com a Globo e adorava fechar negócio com a Globo. Porque a disputa era e é sempre muito dura, mas uma vez concretizado um acerto, nada mais havia e há a temer e ele, como presidente do clube, tinha absoluta tranquilidade em relação à correção com que o acordo seria cumprido em todos os pontos.
Marcelo defendia a disputa entre os clubes dentro do campo e a união fora dele, pois sabia que só com uma posição muito forte poderia fazer frente e negociar bem com organizações igualmente fortes, como a Globo, ou até mais fortes que os clubes, por motivos totalmente errados, como a CBF.
Sanches, Patrícia & Cia. atiraram em seus pés, destruíram a união e tornaram a todos presas mais fáceis, não da Globo ou da Record ou da Rede TV, empresas cujos interesses, ao fim e ao cabo, são coincidentes com os interesses dos clubes, mas presas fáceis e indefesas da confederação, que seguirá mantendo seu absoluto domínio sobre os clubes.
Mataram, na prática, a ideia de uma liga que ou será independente, autônoma, soberana, como são as ligas europeias, ou não passará de mero departamento, mais uma seção irrelevante da confederação.
É isso que temos hoje, ou melhor, nada temos, pois nunca antes nesse país (cruz credo) como agora, o futuro realmente a Deus pertence, como dizia um ministro da ditadura de não saudosa memória, tanto ele como o regime a que servia.
Esse é o retrato do futebol brasileiro.

Um comentário:

Anônimo disse...

estao matando o futebol brasileiro. daqui a alguns anos, serão 3 ou 4 times duspanto título e o resto todo sofrendo pra ganhar um torneio regional aqui, outro ali.

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