terça-feira, 3 de maio de 2011

Balanço turbinado pelo estádio


Esperava mais do balanço do São Paulo, não nos seus números, mas na sua apresentação. Ao contrário do que foi feito em 2010 e ao contrário do que fez nesse ano o Sport Club Corinthians Paulista, a direção do São Paulo aproveitou a abertura do balanço para fazer dela uma peça de campanha eleitoral, como se a eleição ainda não tivesse ocorrido. Relaxem, senhores dirigentes, a eleição já foi, os senhores venceram, graças à visão, a meu ver, distorcida da justiça. Prevaleceu a chicanice sobre o espírito.
Uma abertura de balanço pode e deve fazer boa propaganda da direção responsável, não questiono isso, mas deve ir além e apresentar ao leitor mais apressado ou pouco familiarizado com a linguagem e a forma de um documento contábil, os resultados básicos, gráficos explicativos e a interpretação dos grandes números.
Ainda antes de entrar na peça contábil propriamente dita: há algumas semanas, dias depois da apresentação dos números do balanço corintiano e antes da eleição para presidente do clube, em 20 de abril, circulou pela internet e alguns órgãos de imprensa a informação que a receita total do São Paulo chegara a 213,3 milhões, dando ao clube o posto de maior faturamento do Brasil no ano de 2010. Pelo que sabia e acompanhei no decorrer do ano achei o número exagerado. Conversei com duas fontes com ligações com o clube, e ambas disseram que o número real era bem inferior. Embora tudo estivesse pronto antes da eleição, o balanço, até contrariando uma tradição, foi publicado no último dia do prazo legal. O que não faz uma eleição…

Receita alta em ano fraco
Apesar de 2010 não ter sido um bom ano esportivo para o São Paulo, foi de 12,6% o aumento na receita total do clube, que passou de 172,9 milhões para 194,7 milhões de reais.

Um olhar rápido ao quadro de receitas, aponta três fatores que influenciaram o balanço: o crescimento contínuo nas receitas do Estádio do Morumbi, o crescimento nas receitas de TV e a queda abrupta e previsível das receitas de marketing, justamente a área pela qual o São Paulo durante anos foi badalado.
Considerando somente as receitas do futebol e do estádio, sem os valores recebidos em transferências de atletas, o total é de 143,8 milhões ou 165 milhões se acrescentarmos a receita da área social. Para os efeitos do que entendo como receita operacional do futebol, entretanto, o valor correto é de 143,8 milhões, com uma evolução de apenas 2,5% sobre o total de 2009, que atingiu 140,3 milhões de reais. A razão para essa pequena diferença está na queda das receitas de marketing em 43%, passando de 31,3 milhões em 2009 para 17,9 milhões de reais em 2010, num claro erro estratégico da direção do clube e dessa área em particular.
Durante anos acompanhamos a verdadeiras escaramuças entre o São Paulo e seu patrocinador máster, a LG, que por muitos anos ostentou sua logomarca na camisa tricolor. As principais queixas eram com relação ao valor do patrocínio e à inexistência de postura favorável do patrocinador em fazer investimentos e parcerias na aquisição de direitos federativos. Outro ponto de discórdia era a cláusula de preferência de renovação que tinha a LG. Ora, essa cláusula não caiu do ceu, ela foi conquistada pelo patrocinador e era benéfica para as duas partes, mas diretores do clube pensavam diferente e comemoraram a sua derrubada no último contrato assinado com a LG.
Essa história merece um post à parte, com os rompantes vazios do presidente do clube e seu vice-presidente de marketing alardeando que conseguiriam patrocínio de 40 milhões (segundo o vice) ou de 50 milhões de reais (segundo o presidente). Depois de meses sem patrocinador, exceto por aparições pontuais, e depois de transformar a camisa num abadá carnavalesco, seguindo o criticado exemplo de seus co-irmãos, o clube fechou um patrocínio tardio e cujo valor real, pelo que parece indicar o balanço, sequer chega à metade do valor pretendido e dado como certo pelo presidente.
Fica a lição.
Ou não, pois a história nos mostra que dirigentes de futebol nunca aprendem com seus erros, pelo contrário, fazem questão de repeti-los.
Apesar disso, entretanto, a receita operacional do futebol, somada à do estádio, apresenta boa evolução:

A última linha da tabela acima é interessante, mas ela perderia muito de sua suabstância se a receita do Estádio não estivesse incluída. Entretanto, o estádio é parte do futebol e, nesse caso do São Paulo, é o que mais se aproxima da conta “matchday” dos clubes europeus.
Enquanto no Internacional os sócios-torcedores contribuem fortemente para a sustentabilidade e estabilidade das receitas, no São Paulo esse papel é executado pelo Estádio do Morumbi.

O Estádio-Estrela
Quando mudou a estrutura do clube no início de sua gestão, Marcelo Portugal Gouvêa foi profético. Transformados em Unidades de Negócios, com metas próprias, a Área Social deixou de ser um sorvedouro de recursos do futebol para ser ela mesma uma geradora de receitas. Em 2010, por exemplo, mantendo uma evolução firme, o faturamento da área atingiu 21,1 milhões de reais, para uma despesa de 17,3 milhões, com um superávit, portanto, de 3,8 milhões de reais.
Essa é uma área sensível na maioria dos clubes brasileiros, dadas suas características, e na maioria dos casos são deficitárias.
Todavia, o brilho do balanço, sem dúvida, é o Estádio Cícero Pompeu de Toledo, o Morumbi. A tabela abaixo mostra isso de maneira inequívoca:

Considerando os últimos seis anos, o Estádio do Morumbi deixou o substancial valor líquido de 72,7 milhões de reais nos cofres do clube. Somente nos últimos dois anos o total atingiu 46,1 milhões de reais, transformando o estádio, na prática, no maior gerador de receita líquida do Brasil, no mesmo patamar do patrocínio Hypermarcas ao Sport Club Corinthians Paulista, descontando a participação de Ronaldo (por isso falo em valores líquidos para o clube).
A realização de vários shows de grupos musicais todo ano, contribuiu sensivelmente para a grandeza desses números. Por extensão, os shows contribuíram com a manutenção do time de futebol. Muitos torcedores criticam essa utilização, notadamente nesse ano, mas a verdade é simples e direta: o clube precisa dos shows, principalmente no primeiro quadrimestre do ano. É nesse período que os clubes brasileiros enfrentam seus maiores problemas de fluxo de caixa, devido às saídas de dinheiro do final do ano – salário de dezembro, 13º e férias, tudo junto, tudo ao mesmo tempo, praticamente. Corre-se, então, para as linhas de empréstimo dos bancos e lá se vão preciosos reais em juros e taxas.
Apesar do fraco desempenho do time, o estádio continua gerando boas receitas e a tendência, com as obras em andamento e a entrada em operação do metrô, com estação a mil metros dos portões, é aumentar ainda mais o faturamento e sua importância no quadro de receitas do clube.
Dentro dessa sequência mostrando os balanços de alguns clubes, podemos atualizar o quadro usado no post sobre o Internacional, agora com o link para aquela matéria:

Corinthians: balanço turbinado por Ronaldo e sua marca.
Santos: balanço turbinado por craques – Neymar e Ganso.
Internacional: balanço movido a Sócios.
São Paulo: balanço turbinado pelo Estádio do Morumbi.

Esse é o mesmo estádio que não foi considerado adequado para receber jogos da Copa do Mundo. Afinal, qual é a graça de investir meia dúzia de moedas num estádio pronto, quando se pode investir zilhões de moedas num estádio a ser construído?

Folha em alta
O pacote de salários, encargos e benefícios do futebol do São Paulo passou de 78,8 milhões em 2009 para 87,6 milhões de reais em 2010, num crescimento de 11,2%. Esse valor corresponde a 61% da receita operacional do futebol. Se retirarmos desse valor a participação da receita do estádio, o percentual de comprometimento sobe para 80%, demonstrando muito bem a importância da receita do estádio para as contas do futebol e do clube.
O extinto G14, que congregava os maiores clubes europeus, preconizava que a folha salarial comprometesse de 55% a 70% da receita operacional dos clubes. Segundo estudos do órgão, esse nível de participação não comprometeria a saúde financeira do clube e seria o bastante para mantê-lo competitivo, com elenco de boa qualidade. Lembrando que por receitas operacionais do futebol entende-se os direitos de TV, bilheteria, sócios-torcedores e rendas associadas no estádio, licenciamento da marca e marketing.
Essa folha parece-me ser a mais cara do Brasil, embora a folha do Corinthians deva ser maior, considerando a participação de Ronaldo nas verbas de marketing.
O pacote de contratações de 2010, caras e ineficientes em sua maior parte, contribuíram em muito para o valor chegar a esse total. Pelo andar da carruagem, se não houver um controle em 2011, o valor da folha do clube chegará aos 100 milhões de reais.
O passivo (circulante e não circulante) passou de 144,1 milhões para 164,4 milhões de reais, dos quais 69,7 milhões referem-se a dívidas com instituições financeiras.
Em síntese, um bom balanço, dentro das condições do futebol brasileiro, mas, tal como ocorreu com os outros, teremos uma visão melhor nos próximos dias. Como já disse em comentários e repito aqui, não sou contador, não sou um especialista em ciências contábeis. Para as análises mais aprofundadas e técnicas valho-me da colaboração dos especialistas que trabalham nas empresas de auditoria. Interessam-me as relações entre os itens componentes da receita, a relação folha/receita, a relação receita total/receita de transferências, entre outros pontos.
Com os novos contratos de direitos de TV, o mês de abril de 2013 será muito interessante, quando poderemos ver saltos dignos de Maurren Maggi e Fabiana Murer nos números dos clubes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário