terça-feira, 13 de setembro de 2011

Adilson rebate rótulos, cita Telê e avisa: 'Não aceito que me julguem'


Reprodução: globoesporte.com 
Marcelo Prado e Sergio Gandolphi
Chamado de 'professor pardal', técnico se apega a exemplo de reviravolta do 'ex-pé frio' Mestre Telê e deixa no ar a mágoa com o Corinthians
Até julho de 2010, Adilson Batista era considerado um dos técnicos “tops” do futebol brasileiro. Vice-campeão da Taça Libertadores de 2009 pelo Cruzeiro, saiu da Toca da Raposa após um ótimo trabalho de dois anos e meio e chegou ao Corinthians para substituir Mano Menezes, que havia deixado o Parque São Jorge para assumir a Seleção Brasileira. Após quatro meses, saiu do Timão, pressionado pelos fracos resultados e por não se sentir unanimidade perante o grupo. Veio 2011 e uma nova esperança se reacendeu. Afinal, ele comandaria o Santos com a geração mais badalada do futebol brasileiro nos últimos anos. Após três meses, 11 jogos e apenas uma derrota, foi demitido. Depois, novo trabalho sem sucesso, desta vez pelo Atlético-PR.
Adilson conheceu o outro lado da moeda. Sem prestígio, ganhou nova chance para se reerguer, desta vez no São Paulo. Pode-se dizer que é a união perfeita em busca do sucesso que ambos esqueceram no passado. O treinador não ganha nada desde o título mineiro de 2009, enquanto o clube do Morumbi perdeu seu rumo após a saída de Muricy Ramalho. O início, no entanto, não tem sido fácil. Apesar da terceira posição na tabela de classificação do Campeonato Brasileiro, o São Paulo ainda oscila demais. Adilson sofre com a desconfiança do torcedor, mas mantém seu foco no trabalho.
Respira São Paulo Futebol Clube 24 horas por dia. Dorme, acorda e come no CT da Barra Funda. Participa ativamente de todo o material didático que é repassado aos atletas. Alia a modernidade de um iPad com a simplicidade da prancheta para trabalhar no dia a dia. Em entrevista exclusiva ao GLOBOESPORTE.COM, o treinador não esconde o incômodo com rótulos que ganhou no futebol, como o de "Professor Pardal". Como exemplo de reviravolta na carreira, Adilson cita Telê Santana, que, segundo ele, "passou 20 anos sendo chamado de pé-frio" e depois "virou o melhor do mundo". Adilson garante que não é retranqueiro e diz ter uma certeza:
- Eu sei que o estou fazendo. Logo estaremos conquistando o que estamos procurando.
Adilson Batista acredita que o São Paulo brigará pelo Brasileirão (Foto: Marcos Ribolli/Globoesporte.com)
Veja a entrevista abaixo
GLOBOESPORTE.COM - Nesta semana, você completará dois meses de São Paulo. Que balanço é possível fazer do seu trabalho até agora?
Adilson Batista - É evidente que gostaria de estar em uma situação melhor do que a que estamos. Deixamos a desejar em algumas partidas, principalmente dentro de casa. É claro que é preciso considerar alguns fatores. Perdi jogadores machucados, suspensos, convocados. Não estou aqui reclamando ou justificando. Faz parte do trabalho e não sou só eu que convivo com isso. Mas deixamos alguns pontos escapar.
Você ainda está longe de ser uma unanimidade perante o torcedor. Como encara essa situação? O quanto isso atrapalha o seu trabalho?
Não sou de sair muito, fico o tempo todo no CT. Mas, no pouco que saio, vejo são-paulinos me cumprimentando, me desejando sorte, me querendo bem, esperando que eu tenha uma identificação com o clube e que possa repetir o que fiz no Cruzeiro, já que os clubes têm estrutura parecida. Com os resultados, as coisas vão melhorar. Tenho consciência do que estou fazendo, estou respirando o clube, estou morando no CT e, com o tempo, vamos conquistar o resultado que estamos procurando.
Por que você resolveu morar no CT?
Achei que era importante. Você chega, acompanha os dez jogos que a equipe havia feito até aqui no campeonato, vê imagens abertas de tudo que foi gravado, observa material dos atletas, vai a Cotia, acompanha a estrutura montada lá, faz coletivo com os juniores. No CT, posso interagir com a área médica, com a fisioterapia, com a preparação física. Acho que facilita demais o meu trabalho. Achei melhor ficar no CT. Era o que eu tinha de fazer mesmo. Logo mais, eu vou procurar um flat.
Você disse acima que o torcedor espera que você repita o trabalho feito pelo Cruzeiro. Por que hoje as pessoas dividem o Adilson Batista treinador em duas fases? A primeira, ótima no Cruzeiro, e a segunda, com três passagens ruins por Corinthians, Santos e Atlético-PR?
É preciso saber analisar as coisas. Meu trabalho não começou no Cruzeiro. No Mogi Mirim, fiz um campeonato com 65 times e perdi a decisão para o Etti Jundiaí, que era bancado pela Parmalat. Depois, fui para o América-RN, e lá fui campeão estadual. Na sequência, estive perto de subir para a Série A com o Avaí e salvei Grêmio e Paysandu do rebaixamento. Também fiz ótimo trabalho no Jubilo Iwata (JAP). No Cruzeiro, fiz grandes trabalhos. Só perdi um Mineiro quando o Vanderlei estava lá. Na Libertadores, fui um ano eliminado pelo São Paulo, outro pelo Boca e no terceiro fui vice-campeão perdendo para o Estudiantes. E agora tem gente que quer me julgar por três trabalhos? Não aceito que me julguem. Nesse momento, você escuta cada bobagem...
E por que ficou tão pouco tempo em cada um dos três times?
Em um time (Corinthians), perdi inúmeros jogadores por lesão e Seleção. No outro (Santos), perdi apenas uma partida (para o Corinthians), vindo de uma viagem desgastante (o Peixe havia jogado contra o Deportivo Tachira na Venezuela, pela Libertadores) e não contei com quatro jogadores nessa partida, que estavam na Seleção. No Atlético-PR, fui porque sou atleticano, tenho cadeira no estádio e achei que poderia ajudar. Pela torcida que tem, eles estão devendo um grande time. Tentei fazer o meu melhor e não consegui. Mas não aceito que fiquem me julgando por isso.
Ficou alguma mágoa de Santos e Corinthians? Você não cita o nome dos times.
O importante é que deixei as portas abertas. No jogo (do São Paulo) contra o Santos, o Pedro (diretor de futebol) me deu um abraço. O mesmo no Corinthians com o seu Mário Gobbi (ex-diretor de futebol). Eu sou um cara limpo, honesto, trabalhador. Quem não quer um cara assim? Às vezes dá certo, às vezes não dá.
No Corinthians, muitos dizem que você caiu porque não permitiu que os jogadores fumassem e jogassem baralho na concentração.
Passado. Estou no São Paulo. Só estou respondendo porque vocês estão perguntando. O que me deixa feliz é que o meio me conforta. No jogo contra o Santos, todos os atletas vieram me cumprimentar. O mesmo aconteceu contra o Atlético-PR. Tenho respeito por todas as instituições. Eu não bato de frente com ninguém. Daqui a pouco vou conquistar algo no São Paulo e não vou mudar. Você escuta algumas coisas que precisa relevar, que é melhor dar risada.
Ver o Thiago Heleno bem no Palmeiras o deixa alviado? (No Corinthians, o treinador barrou o capitão Chicão para escalar o zagueiro com quem tinha trabalhado no Cruzeiro)
Não tem alívio, ele é base do Cruzeiro, tem potencial, tem força. Esse tipo de coisa não me incomoda. Eu conheço o jogador. Como o Gil, que estava no Cruzeiro e foi para a França. Agora por que nao deixaram jogar? Não é problema meu. Eu sou limpo, transparente. Não fico fazendo média com A, B ou C, com empresário. Comigo é campo. Jogou bem, fica; não jogou bem, sai.
É difícil lidar com rótulos? Você é chamado de Professor Pardal, de retranqueiro
O Telê ganhou título brasileiro em 1971 e passou 20 anos sendo chamado de pé-frio. Aí ganhou com o São Paulo e virou o melhor do mundo. Mas ele sofreu por 20 anos, mesmo sendo um profissional fantástico. O Vanderlei (Luxemburgo) era decadente, está aí de novo. Isso magoa. O Zagallo "inventou"  o Piazza de quarto-zagueiro na Copa de 70 e todos viram o que aconteceu. Quanto ao termo professor Pardal, fui eu que falei após uma partida do Cruzeiro contra o Ituiutaba. Comecei o jogo com o Henrique (volante) de zagueiro e estávamos ganhando por 4 a 1. Como tínhamos um jogo pela Libertadores, saquei e botei um zagueiro, o Thiago Martinelli. O jogo acabou 4 a 4 e, na coletiva, eu ironizei, me chamando de Professor Pardal. Mas se você pensar, quando o volante estava improvisado, estávamos ganhando por 4 a 1. Com o zagueiro da posição, que não era para tomar gol nenhum, levei três. E sou eu que invento?
Ser chamado de retranqueiro o incomoda?
Eu já joguei no 4-4-2, no 4-3-3. Mas eu preciso escalar de acordo com a característica dos jogadores que eu tenho. Eu uso três volantes e sou retranqueiro. Quando estava lá no outro, botei o Ralf para jogar ao lado do Paulinho e do Jucilei. Na época, fui crucificado. Como é que eles jogam hoje? O Muricy fez o mesmo no Santos na final da Libertadores, quando usou o Adriano, que foi peça fundamental. E só eu sou retranqueiro? Quem está lá dentro sabe o que está fazendo, quem está fora precisa saber respeitar. Contra o Atlético-MG, por exemplo, fui criticado porque escalei o Wellington na lateral. Só que ninguém observa que o Cuca mudou o jeito do adversário jogar e botou o Neto Berola na esquerda. Eu faço o que acho que possa fazer o time render bem. No futebol, o atleta tem de jogar aqui, ali e lá, senão não serve. Contra o Fluminense, escalei dois volantes e botei o Cícero um pouco mais recuado. O que aconteceu? Levamos um passeio do Fluminense. E quem está errado? A grande verdade é que fazer análise pós-jogo é uma das coisas mais fáceis no futebol.
Ficou surpreso com o convite do São Paulo?
Recebi outras propostas e estava encaminhando uma situação de dar uma saída e não concretizei. Quem está no meio está acostumado. O importante é que o Brasil tem grandes profissionais.
No que o São Paulo precisa evoluir?
Precisamos melhorar nos três setores, fazer eles andarem juntos. Estamos cometendo muitos erros por desatenção. Quando eu tiver tempo para trabalhar, vai melhorar. Começou o Denilson, que seria a peça para exercer uma liderança tática em campo, ele se machucou. Quarta e domingo não tem como treinar. Agora terei a semana cheia, mas temos quatro na Seleção. Nesta semana, também treinarei no Morumbi. Vou seguir trabalhando e vou encontrar o time. Ainda não encaixamos "aquele jogo", mas tenho certeza de que logo isso vai acontecer.
Como adversário, você sempre acompanhava o Rogério Ceni. Mudou algo na sua impressão ao estar trabalhando diariamente com ele?
Para mim, o Rogério é um meia esquerda que joga no gol. É o cara que pensa, que organiza, é inteligente. Dispensa comentários, é um cara fantástico, profissional sério, dedicado, só quer vencer, tem me ajudado demais.
Você está ansioso para contar com o Luis Fabiano?
Quem me observa no dia a dia acha que sou um cara agitado. Mas eu sou normal, tranquilo. Ele é um grande jogador e, na hora certa, vai nos ajudar bastante. É preciso ter calma e não atropelar etapas.
Rogério Ceni; Piris, João Filipe, Rhodolfo e Juan; Wellington, Denilson, Casemiro e Lucas; Dagoberto e Luis Fabiano. É possível escalar esse time? O torcedor sonha com a volta do Luis Fabiano e não imagina a equipe sem Lucas e Dagoberto.
Grande time. Bem treinado, com repetição de jogos para ganhar conjunto, é uma ótima opção.
Recentemente, você foi muito elogiado pelo Muricy Ramalho. Como é sua relação com os outros treinadores dentro do meio do futebol?
Criamos uma boa amizade. Nós nos enfrentamos muito na Libertadores, ele pelo São Paulo, eu pelo Cruzeiro. Eu me lembro que, em 2005, na premiação dos melhores do Campeonato Brasileiro, saímos depois, ficamos conversando, contando piada, tomando cerveja. O Muricy é autêntico, é vencedor. Fiquei feliz com a sua ida para o Santos. O Brasil tem uma safra de ótimos treinadores. Inclusive, quero aproveitar e dizer que estou na torcida pelo Ricardo Gomes, que é um cara muito bacana.
Aproveitando sua última resposta sobre o Ricardo Gomes, como está a sua saúde? Você se cuida, teve uma precaução maior após o que aconteceu com o técnico do Vasco?
Tenho, faço exames regularmente. Quando cheguei aqui ao São Paulo, refiz todos. Estou com o colesterol meio alto. Acho que é por causa da manteiga, dos ovos, do camarão (risos). O resto é normal. A pressão está 12 por 8, durmo bem. Estava gordinho, dei uma emagrecida. Agora só falta um convite para bater uma bolinha aqui no CT.

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